quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Aldeia indígena Guarani

Visita feita dia 24 de Outubro de 2010


Fonte: Acervo pessoal de Carolina Loyolla

 Visitamos a aldeia indígena da tribo Guarani, localizada no bairro Barragem, depois de Parelheiros - São Paulo, com a intenção de desmistificar algumas histórias lendárias sobre a resistência dos índios no Brasil, como também conhecer a cultura pura deles e observar quais são as transformações sob esta no mundo neoliberal que vivemos hoje. Nossa intenção era também de verificar como a tecnologia os atingiu e refletir criticamente sobre a violência aos Direitos Humanos desse povo que lutou e resistiu por nós, nos cedendo o espaço que vivemos hoje.
O território que a aldeia ocupa não está protegido contra invasões, pois o governo retirou a cerca que havia, substituindo-a por uma placa escrita “Reserva Indígena”. Esta não impede nenhuma invasão, o que de certa forma ameaça os índios. Hoje já existem casas que foram construídas próximas a aldeia, resultando em um espaço cada vez mais reduzido para os Guaranis.
Hoje em dia existem três tipos de casa dentro da aldeia: as ocas, que são feitas com taquaras e troncos de árvore, com o teto coberto por palmeiras e palhas; as de argila com madeira, que foram construídas com a intenção de suportar as chuvas e ventos; e as de tijolos, que foram construídas pelo governo após reclamações sobre enchentes dentro das casas e pedidos da comunidade indígena, representada pelo Pajé e pelo Cacique.

Fonte: Acervo pessoal de Natália Guarany.

Fonte: Acervo pessoal de Natália Guarany


Dentro das casas há apenas dois cômodos, um com banheiro, e outro com camas artesanais no contorno da parede, tendo no centro algumas lenhas e objetos de utensílio doméstico. Algumas casas já possuem televisão e rádio. Não há armários ou dispensa para guardar os alimentos.
A maioria das famílias prefere comer na frente da casa em roda, pois há mais espaço para todos. O único tipo de alimento para subsistência que cultivam são os ovos das galinhas, pois alegam que não têm mais espaço para agricultura e só conseguem pescar em alguma determinada época do ano; portanto vivem de doações alimentícias e compras de supermercado em Parelheiros, feitas pelos poucos que trabalham na aldeia e podem sustentar sua família.
Encontramos, assim que chegamos à aldeia, uma Unidade Básica de Saúde. Perguntamos aos índios, que se dispuseram a nos acompanhar na visita, sobre quem havia construído esta unidade. Afirmaram-nos que o Governo de São Paulo a construiu em época de eleição há alguns anos, e que após este período não mantiveram nenhum trabalho de manutenção do espaço. Quem acabou assumindo tudo foi o governo de Santa Catarina, o que é uma vergonha para nosso estado, que abandonou esta comunidade tão importante.

Fonte: Acervo pessoal de Carolina Loyolla


Como nossa visita foi na véspera das eleições, perguntamos para dois homens, que se dispuseram a nos ajudar, se eles iriam votar e a resposta foi positiva, bem simples, porém  muito simbólica, pois relataram em poucas palavras que o voto é um meio de esperança para transformação da situação deles. Com muita ética, referiram não revelar seu voto.
Aproveitamos a oportunidade e perguntamos se existe algum ato político para escolher o Pajé e o Cacique. O índio Cláudio Fernando (Popygua) nos explicou como funciona essa organização, onde o cacique é eleito por todos da comunidade Guarani e tem um mandato de 4 anos, que pode ser renovado duas vezes e depois desse período é substituído por outro representante. Já o Pajé é fixo e escolhido por Deus e pelos espíritos de sabedoria. Nossa maior curiosidade quando ele nos falou do Pajé foi de como eles sabem que o Pajé era realmente o escolhido? E a resposta foi clara: “Pela sabedoria que compartilha com todos, pelas lições e fé que nos transmite.”
Percebemos que a fé da tribo Guarani é parte da cultura intacta deles, que permanece cultivada e forte. Todas as noites se reúnem nas casas de reza para orar e dar graças ao Senhor em um ritual dirigido pelo Pajé. É um ritual muito interessante, onde contamos com instrumentos musicais, artesanais, roupas próprias para o culto e pinturas no rosto. Duas vezes por ano, no mesmo local de oração, é feito o batismo das crianças, onde os índios guerreiros dirigem o ritual junto ao Pajé, contando com a participação das crianças. Essa celebração pode durar a madrugada toda, tendo início as 17h sem hora para acabar, pois o próprio espírito de cada criança é chamado e “incumbido” a dar seu respectivo nome em Guarani, com o significado e a missão desta vida.
Existem duas escolas dentro da aldeia: uma Estadual e outra Municipal. O índio Popygua, que nos apresentou o espaço, é formado pela USP em Pedagogia e exerce o papel de professor de Artes, Educação Física e Tupi Guarani da escola Estadual. Nos explicou também que há mais dois professores da própria aldeia e os outros são concursados da cidade de São Paulo. As temáticas trabalhadas por eles são: Português, Matemática, História, Geografia e Ciências.

Escola Estadual
Fonte: Acervo pessoal de Carolina Loyolla


As crianças são alfabetizadas em um método bilíngüe, que não exclui a raiz cultural e não desmerece a necessidade de se incluir no idioma português. Entramos na escola, fotografamos e vimos diversos cartazes das oficinas já realizadas dentro do espaço escolar, que são focadas à cultura dos próprios índios.


Fonte: Acervo pessoal de Natália Guarany

A escola da prefeitura (municipal) está desativada atualmente para reformas, mas foi construída baseada na arquitetura indígena, é lindíssima e proporciona o ingresso de mais crianças à escola.
Escola Municipal
Fonte: Acervo pessoal de Carolina Loyolla

É normal dizer hoje que os povos indígenas foram dizimados, mas na verdade os índios ainda existem e resistiram a tantos preconceitos, mesmo em silêncio preservando culturas e religiões. Por estarem afastados do “mundo em que vivemos hoje”, que são os prédios, a modernidade, os metrôs, acabam não chamando tanta atenção para si mesmo, e passam despercebidos. Devemos mostrar aos cidadãos de São Paulo o quanto este povo contribui para a diversidade cultural em que vivemos hoje dentro do nosso estado, deixando claro que os índios fazem parte da nossa vida e também são responsabilidades nossas como cidadãos brasileiros.


Autoras: Natália Cristina Guarany e Carolina Campos Leite Loyolla

Um comentário:

  1. Este texto é uma pintura de conteúdo e imagens por trazer tantas informações verídicas e atualizadas sobre os verdadeiros donos do Brasil, que agora sobrevivem em uma longínqua localidade, no extremo sul da capital com doações e alguns trabalhos artesanais. Muito bem escrito e esclarecedor, sem contar que nenhum livro tem estas novas informações sobre como e onde estão vivendo os índios e o que fazem para manter sua cultura nesse mundo neoliberal e globalizado.

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Obrigada... Carpe Diem!!